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Suicídio: especialista no Acre fala sobre tema e esclarece dúvidas quanto as causas e sinais

O Brasil ocupa atualmente a 8ª posição no ranking de países com maior incidência de suicídios

Enquanto o suicídio segue como um dos assuntos mais comentados no Acre e em todo o Brasil, a reportagem da ContilNet entrou em contato na manhã de quinta-feira (20) com a psicóloga e professora da Universidade Federal do Acre, Dra. Patrícia Yano, que falou a respeito do tema e as considerações científicas/psicológicas do ‘ato contra a própria vida’, pois na maioria das vezes esse assunto é abordado sem explicações claras e convincentes.
Do acordo com dados coletados no ano de 2016 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 800 mil casos de suicídio foram registrados em 2015 em todo o mundo dos quais, 75% em países de média e baixa renda. O Brasil ocupa atualmente a 8ª posição no ranking de países com maior incidência de suicídios, ultrapassando o número de 12 mil casos por ano.
Dra. Patrícia Yano
De acordo com a doutora em Psicologia Clínica, o suicídio não tem uma única causa e não está relacionado apenas a um transtorno psiquiátrico específico, mas se manifesta como sintoma em vários deles, entre os quais: Transtornos Depressivos, Bipolaridade e Transtorno da Personalidade Borderline – classificados na 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais.
Yano acredita que os casos devem ser considerados problemas de saúde pública, já que afetam um número significativo de pessoas. A especialista também enfatiza o fato de que o álcool e outras drogas podem potencializar o comportamento suicida.
“Não é fácil compreender, na maioria das vezes, de onde vem o desejo de se matar, porque isso está ligado a diversos fatores. O fato é que ele se manifesta como sintoma em transtornos mentais variados e comunica, claramente, um sofrimento intenso”, disse.
Suicídio: sinais de sofrimento não identificados ou não falados diretamente

A psicóloga disse que, em algumas situações, o suicida em potencial pode não apresentar sinais de que vai tirar a própria vida pois, de acordo com ela, são sutis as demonstrações de sofrimento e requerem muita atenção por parte de quem convive.
“Uma pessoa pode não comunicar diretamente a ideação suicida, e ainda assim, estar vivenciando um sofrimento profundo que desencadeia pensamentos de autodestruição não identificados nas relações sociais estabelecidas”, frisou.
Para a especialista, uma pessoa que não está diagnosticada com uma disfunção psicológica também pode tentar suicídio, dependendo do nível de angústia experienciado. “Quando se trata de saúde mental, em geral, uma pessoa não adoece da noite para o dia. O acometimento é gradativo e por isso, a atenção é fundamental”, enfatizou.
Às vezes, como afirma a professora, os pensamentos suicidas são comunicados de uma forma não diretiva e ainda, é possível encontrar indivíduos que verbalizam o desconforto grave por meio de metáforas.
“Muitas vezes, não fica claro para o ouvinte que a pessoa quer se matar, mas ela pode, em algumas circunstâncias, dizer: ‘não dá mais pra mim’, ‘não sei por que nasci e pra quê estou vivo’ ou, usando metáforas, por exemplo ‘eu não dou mais conta de seguir o curso desse rio ’”, exemplificou.
Ignorância: “Falta do que fazer” ou “Só quer chamar atenção”
De acordo com a especialista, é muito comum as pessoas classificarem quem tenta o suicídio como ‘desocupadas’ ou ‘carentes de atenção’, utilizando frases como: “Só quer fazer charme” ou “Tem que procurar o que fazer”.
Yano acredita que a justificação para tais desconsiderações do tema esteja na falta de tomada de consciência da importância da saúde mental, que precisa estar em equilíbrio com as funções orgânicas. “Esses dizeres já se tornaram clássicos e resumem atitudes de ignorância sobre a saúde mental”, relatou.
“Uma parte da população não sabe que da mesma forma que um rim deve funcionar saudavelmente, nossas funções mentais também precisam. Isso, culturalmente, não foi ensinado. O adoecimento mental é real. O equívoco vem dessa construção de crença organicista, que na maioria das vezes, desconsidera os sentimentos, as emoções e todo o abstrato não palpável”, explicou.
Influência do mundo tecnológico e das relações superficiais no suicídio
Quando perguntada sobre a influência do mundo tecnológico e das informações instantâneas, Patrícia Yano expressou que não é possível considerar o ser humano isoladamente sem o contexto cultural e social que é inserido. Para ela, há uma relação entre a tecnologia avançada, o número elevado de informações e o suicídio, afirmando que a qualidade das relações interpessoais estabelecidas ultimamente também contribuem para o crescente número de suicidas em todo o mundo.
“Dar conta de muitas informações, inovações e ainda se ‘desligar’ do real, na maioria das vezes, gera-se muitos problemas, incluindo a falta de sentido. Além disso, as relações verticalizadas, superficiais, não saudáveis, dependendo do campo, contribuem para esse adoecimento”, disse.
Do ponto de vista existencial, no momento atual, a docente diz que boa parte das pessoas se preocupa com o “ter” e, por isso, compromete-se o amadurecimento e o crescimento. “Os vínculos humanos estão fragilizados”, acrescentou.
Quanto à categoria juvenil, que está imersa no ‘universo digital’ e também suscetível ao adoecimento e suicídio, a terapeuta afirma que há uma falta de resiliência – capacidade de lidar saudavelmente com os sofrimentos e as frustrações, algumas vezes, dificultando a busca pelo bem-estar.
“Talvez, o motivo pelo qual a maioria dos jovens não esteja saudável, no âmbito da saúde mental, seja a não vivência funcional de frustrações, que proporcionam ao Ser mais preparo para elaborar as dificuldades da vida, já que o amadurecimento passa pelas experiências de frustrações”, enfatizou.
‘Baleia Azul’ e outros jogos de morte
Durante a entrevista, a professora falou sobre o jogo “Baleia Azul”, que despertou muita curiosidade no público geral, afetando adolescentes de todo o Brasil e alcançando até o Acre, como registrado em grupos de redes sociais e sites de notícia na última semana.
Para Yano, a família desempenha um papel importante na vida do adolescente e nada substitui dentro desse campo, as relações qualitativas, de cuidado e apoio. Dentro da área dos transtornos mentais, a ajuda do sistema familiar é indispensável e tem um potencial enorme para gerar pessoas saudáveis, com oferta de qualidade de presença.
“Os jovens vítimas desses jogos mortais precisam de uma postura, por parte dos pais e outros familiares, acolhedora, protetiva e confirmadora. Isso não quer dizer que as regras precisam ser extintas, porque possuem suas funções. Contudo, a escuta sem julgamento, nesse momento, é o mais indicado”, exclamou.
Real motivo: Consciente ou inconsciente
Patrícia considera, com base nos estudos em psicopatologia, que quando uma pessoa tenta suicídio ou comete, ela não está consciente da dimensão do seu ato, pois há uma desorganização cognitiva (forma como se apreende e dá sentido ao mundo) por parte da vítima.
Ao falar sobre o real motivo de um sujeito que tenta ou tira a própria vida, a psicoterapeuta afirma que há um consenso entre teóricos do mundo todo que estudam o suicídio, quanto à perda do sentido de vida e pela tomada do suicídio como busca para anular seu sofrimento.
“O que um suicida faz é tentar, já que não encontra outras possibilidades, acabar com a aflição existente, tendo em vista que perdeu o sentido da vida”, concluiu.

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