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Gravidez na adolescência: como o Acre lida com a problemática social

Acre teve redução no ano passado de 11% nos indicativos de gravidez na adolescência em relação a 2015, segundo dados do MS – Fotos: Angela Peres
Em março deste ano, dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MS) revelaram que em 2016 o Acre teve redução de 11% nos indicativos de gravidez na adolescência em relação a 2015.
Mesmo assim, o governo segue monitorando a problemática de esfera nacional, com a preocupação de que ela desencadeia consequências devastadoras, sobretudo biológicas e psicológicas, às adolescentes que dão à luz precocemente.
Partos prematuros, hipertensão e infecções maternas repassadas ao bebê, entre outros, são agravantes iminentes listados pelo ginecologista Everton Santiago acarretados pela gestação que, na maior parte, está relacionada à faixa etária de 15 anos ou menos.
“A medicina considera que a melhor idade para conceber o primeiro filho é entre 20 e 29 anos. Ocorre que, quando se constata essa gestação em uma adolescente, que não tem sequer estrutura física para ter uma criança, os riscos aumentam consideravelmente”, explica.
Em Rio Branco, a Maternidade Bárbara Heliodora tem uma média de três mil atendimentos mensais. E para lidar com adolescentes que necessitam de cuidados e orientações específicas, o hospital dispõe de assistência médica, social e psicológica.
Ginecologista Everton Santiago alerta para as complicações da gravidez na adolescência
A psicóloga Silvana de Oliveira Silva aponta que, de cada dez adolescentes grávidas que chegam ao hospital, uma vem acompanhada pelo pai da criança. “E é nesse momento que elas têm a consciência de que aquela responsabilidade vai pesar ainda mais sobre elas”, diz.

O problema em dimensões

As questões relacionadas à gravidez na adolescência exigem atenção da sociedade, sobretudo por três aspectos: a falta de estabilidade emocional e financeira – que em muitos casos estimula a incidência de abortos –, a evasão escolar e a mortalidade materna e infantil.
Para Silvânia, a falta de diálogo e a fragilidade do vínculo familiar, aliada à falta de imposição de limites em meio às transformações sociais advindas pela contemporaneidade, ainda são os maiores causadores do problema.
“A orientação que fica a cargo da escola jamais pode ser sobreposta à responsabilidade que cabe à família. O diálogo, o acompanhamento de cada fase e descoberta e a liberdade vigiada sempre serão os maiores trunfos dos pais sobre seus filhos”, frisa a psicóloga.
A adolescente M.L.S., 15 anos, acaba de entrar para as estatísticas. E segundo ela, a gravidez foi por decisão própria: “Uma prima minha engravidou. Outras pessoas que conheço engravidaram também, e eu achei legal”.
Enquanto cursava o 9° ano, ela e o namorado decidiram que queriam um filho. “Mas quando ele soube que eu estava grávida mesmo me abandonou. Foi um choque principalmente pro meu pai quando descobriu. Sei que vai ser difícil, mas vou cuidar do meu filho”, afirma a mãe do pequeno Miguel, nascido há menos de um mês e ainda se recuperando de uma infecção na maternidade.
A assistência e acompanhamento psicológico do hospital faz toda a diferença ao lidar com adolescentes que necessitam de apoio. “Às vezes essas meninas não contam sequer com o apoio dos pais e ficam totalmente debilitadas emocionalmente e com sentimento de culpa. Algumas, muitas vezes, nem chegam a fazer as consultas de pré-natal, o que aumenta os riscos na gestação. Então, nosso papel acaba sendo ajudá-las a encarar da forma menos traumática possível esse futuro e o novo momento de ter alguém para cuidar”, finaliza Silvana.
Psicóloga Silvana de Oliveira frisa a importância do apoio familiar à adolescente

Relatos de quem aprendeu com a própria experiência

A jovem Roberta Bandeira sabe bem da importância de ter tido a presença da mãe para encarar a gravidez, que aos 14 anos lhe fez reprovar a série escolar que cursava naquele momento.
A mãe de Sophia, atualmente com três anos de idade, relembra o difícil momento de recomeçar a vida com novo olhar e responsabilidades. “Escondi a notícia até os seis meses e não comia quase nada para não crescer a barriga. Mesmo depois de tudo isso, minha mãe não me abandonou. Já a minha relação com meu pai ficou um caos e só voltamos a nos aproximar depois que minha filha nasceu”, relata.
A pior parte ficou por conta de complicações do parto prematuro: “Foi muito traumático ficar longe da minha filha por um mês. Tive alta médica e ela continuou no hospital até ganhar peso. Todos os dias eu ia visitar ela pra tentar amamentar, e nesse tempo vi vários bebês não resistirem e morrerem. Foi quando me dei conta do meu despreparo emocional. Só pedia a Deus que conseguisse trazer a Sophia pra casa”.
Atualmente, Roberta permanece na casa da mãe, cuida da filha durante o dia e estuda no período noturno para concluir o ensino médio. Ao ver o sorriso de Sophia, dispara: “Encararia tudo de novo por essa dádiva que ela foi pra mim. Apesar de qualquer dificuldade, sempre vale a pena lutar por um filho”.

Políticas públicas de orientação sexual

No Acre, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) coordena um núcleo de ações de prevenção à gravidez na adolescência.
A rede tem a participação de diversos setores governamentais, como o gabinete da vice-governadora Nazareth Araújo, secretarias de Política para as Mulheres (SEPMulheres),  de Desenvolvimento Social (Seds) e de Educação (SEE), que oferecem serviços de orientação aos adolescentes.
Jovem Roberta Bandeira sabe bem da importância de ter tido a presença da mãe para encarar a gravidez, que aos 14 anos lhe fez reprovar a série escolar que cursava naquele momento
As ações previstas para este ano têm o objetivo de alcançar mais jovens em todo o estado, sendo um reforço às políticas públicas com foco no planejamento familiar promovidas pelas prefeituras.
Agência Notícias do Acre

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